
- Chamem uma ambulância! Rápido!!!
- Ela está muito ferida!Acho que bateu a cabeça, está sangrando demais.
- Acho que não sobreviverá.
- O que? - acordei.. dando um grito na cama. Olhei em volta e tudo parecia normal. Meu quarto, minha cama, minha janela. Minha cabeça parecia normal e eu, sem nenhum ferimento - Foi só um sonho! - disse a mim mesma, me acalmando. Levantei, meio atordoada e fui até a cozinha tomar um copo de água. Eu sabia que aquela noite seria impossível eu voltar a dormir então tomei um calmante e fui me deitar.
Acordei de manhã muito disposta, como se nada tivesse acontecido a noite. Me levantei, fui tomar banho e desci para preparar meu café. Era tudo normal, como um dia normal. A mesma rotina. Peguei minha bolsa e parti para o serviço. Na verdade o meu serviço era fotografar. Não era bem um serviço, era uma paixão mesmo. Eu amava fotografar. Era minha vida. Eu parava no centro da cidade e fotografava o casal de velhinhos sentados no banco, de mãos dadas. O casal de jovens se beijando. Os pais com seus filhos. Minhas lentes estavam sempre atentas nas coisas mais perfeitas que estavam ali. Foi quando eu ouvi uma freiada brusca e um barulho que me fez dar um salto pra trás.Olhei em volta, procurando da onde havia vindo aquele estrondo. Foi quando eu vi uma moto caída no chão e um carro todo amassado na parte da frente, próximo a moto. Saí correndo em direção a multidão que se formava em volta do acidente. Quando cheguei mais perto vi uma moça, jovem, caída no chão.
- Chamem uma ambulância! Rápido!!! - Gritou o motorista, saindo desesperado do carro.
- Ela está muito ferida!Acho que bateu a cabeça, está sangrando demais.- replicou uma moça que estava por perto.
- Acho que não sobreviverá. - disse, abalado, um rapaz que estava abaixado do lado dela.
Nessa hora eu senti um arrepio. Uma espécie de Déjà vu. Olhei assustada para a moça no chão. E então ela retribuiu o meu olhar, e ficou ali, olhando, diretamente nos meus olhos. E para me surpreender mais ainda ela disse, num esforço visível, olhando pra mim.
- Marian? - ela apontou pra mim. Eu olhei pra trás, confusa. Como ela sabia meu nome?
Um pouco insegura, respondi.
- Sou eu.
E sem dizer mais nenhuma palavra, ela fechou os olhos, e se foi. Senti um arrepio estranho, mas nem dei bola. Resolvi ir embora.
Chegando em casa, fui encher a banheira para tomar um banho e relaxar. Tirei a roupa e me acomodei naquela água quente. Foi quando eu ouvi um grito desesperado.
- Por favor Marian. NÃO!
Assustada eu me sentei dentro da banheira e fiquei olhando para a porta. Paralizada. Peguei minha toalha e me levantei da banheira, lentamente, sem tirar os olhos da porta. Fui andando em direção ao corredor. Chegando nele, eu vi, perto da porta da cozinha, alguem, parado, de costas pra mim, olhando para o além. Não reconheci quem era, tinha cabelos bem escuros e a pele muito clara. Era uma mulher. Dava para ver o desenho perfeito do seu corpo por trás de uma camisola branca. Ao dar um passo pra frente, a tábua do chão rangeu e ela olhou pra mim. Fiquei completamente apavorada, não sabia se saía correndo ou se a chamava para conversar. Então ela começou a andar na minha direção. Enfim, ela disse.
- Olá Marian! Não lembra de mim?
Eu fiquei completamente imóvel, e conforme ela foi se aproximando eu pude reconhecê-la. Era a minha mãe. Eu não entendia como ela estava ali, pois ela havia morrido quando eu tinha 14 anos. Eu fiquei chocada. E senti uma lágrima escorrer.
- Calma Marian! Não vou lhe machucar. Sou eu. Sua mãe. Só quero lhe perguntar uma coisa.
Disse ela novamente com um sorriso nos lábios.
- Po.. po.. pois diga! - disse eu, me esforçando para as palavras saírem perfeitamente, mas, acabei gaguejando.
- Lembra daquela moça do acidente? - ela apontou pro lado, e eu vi perto da janela outra pessoa parada, olhando pra mim. - Ela veio lhe falar.. Não precisa ter medo minha filha, ela não vai lhe machucar.
- Oi Marian! Sou Anne! - disse ela, virando-se para minha mãe. - Sam, poderia nos dar licença?
Minha mãe fez um sinal positivo com a cabeça e sumiu. A feição suave e encantadora que estava no rosto dela sumiu. Ela olhou mortalmente nos meus olhos. - Voce sabia que eu ia morrer. Voce sabia que eu sofreria um acidente. Custava ter me ajudado?
- Mas eu nem te conhecia. Aliás, ainda não te conheço. Desculpe Anne, mas eu nem sabia. Até um pouco antes de voce morrer eu pensei que era apenas um sonho.Ou então que o acidente aconteceria comigo.
Ela continuou olhando pra mim e sumiu. Aquilo realmente teria acontecido? Ou era mais um sonho? Eu estava completamente maluca. Fui me deitar.
4 da manhã.Algo estava diferente. Quis continuar deitada mas minhas pernas pareciam que não queriam. Elas saíram sozinhas da cama e eu não compreendia. Não tinha forças para puxá-las de novo. Levantei e fui caminhando lentamente pela casa. Mas, espera aí.. eu ainda estava dormindo. Como isso podia acontecer? Continuei caminhando até chegar na porta da sacada. Subi no parapeito... e uma força sobre-humana fez meu corpo se jogar pra frente, quase caindo.
- Por favor Marian. NÃO! - alguém gritou.
Olhei para trás e vi minha mãe parada, olhando pra mim, desesperada. Mas já era tarde. A mesma força voltou e dessa vez foi fatal. Voei. Voei até a calçada. A única coisa de que eu me lembrava era do desespero. E de Anne. Só ouvi o meu corpo batendo no chão, e depois, senti uma mão pesada e fria nas minha costas. E uma voz cruel, fria e irônica disse, com um sorriso malicioso.
- Quer ajuda?



